O Medalhão
- 7 de fev. de 2018
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Tratava-se de um Rei de carácter inconstante. Quando a colheita do reino era abundante, sentia-se desmesuradamente eufórico, mas quando a colheita saía minguada, o seu estado de espírito era incorrigivelmente depressivo, sem vontade de viver, à beira do desespero.
Ele próprio se envergonhava da sua instabilidade emocional e das suas flutuações de ânimo. Assim, fez pública a seguinte proclamação:
« O artesão que for capaz de proporcionar ao monarca um medalhão que lhe possa servir de consolo e lhe outorgue equilíbrio e harmonia será sobremaneira recompensado.»
Todos os artesãos do reino fizeram medalhões das mais variadas forma e feitios para o monarca, mas nenhum deles lhe outorgava a serenidade de espírito.
Certo dia, apresentou-se na côrte um artesão de outro reino e entregou um medalhão ao Rei.
O monarca observou demoradamente um dos lados do medalhão. O que teria aquele medalhão de especial se inclusive, para dizer a verdade, até era menos belo e original do que muitos dos que lhe tinham apresentado?
- Pretendes fazer troça de mim, estrangeiro? perguntou o Rei irritado.
- Se tal for o teu propósito, ordenarei que sejas enforcado.
- De modo nenhum, majestade - respondeu o artesão. - Temo que não tenha contemplado o outro lado do medalhão. Rogo a sua majestade que ache por bem fazê-lo, seguramente, se observar o que aí indico, não voltará a sofrer desequilíbrios de ânimo.
O Rei virou o medalhão e leu:
« Porque há abundância, há escassez; Porque há escassez, há abundância. Mas uma e outra são passageiras, como o estado de espírito de sua Majestade.»
Graças aquele pensamento, o monarca pôde equilibrar os seus humores. Todas as noites lia a sábia instrução e caía num sono profundo e reparador. É preciso dizer mais uma coisa: Quando envelheceu, deixou o reino nas mãos do seu filho, partiu rumo à reconfortante solidão dos bosques até que a dama da morte lhe arrebatou a vida.
A qualidade das qualidades é a equanimidade. Tanto é assim que os antigos textos se referem a ela como o néctar dos néctares ou a ambrósia mais doce.
A equanimidade é equilíbrio, firmeza da mente, ânimo estável, capacidade para não perder o próprio centro ou eixo. A equanimidade torna possível a visão lúcida, e a visão lúcida desencadeia a equanimidade, porque aquele que sabe ver, entende que tudo está submetido à flutuação e à mudança, que tudo flui, muda e não permanece. A equanimidade ensina-nos a aceitar o inevitável e a não desesperar; através da mesma, tornando-nos mais pacientes e sábios e não nos apegamos tanto ao prazer, nem sentirmos tanta aversão pelo desagradável, podendo desfrutar sem apego e sofrer o que é inevitável, sem acrescentar mais sofrimento.
A equanimidade é sempre uma magnífica concelheira, outorga poder interior, harmonia e serenidade. É um importante fator de maturidade e crescimento interior. Se este mundo precisa de alguma coisa é de equanimidade, mas esta não é insensível nem indiferente, é antes uma energia muito valiosa de precisão, lucidez e estabilidade. Quando, numa ocasião, Buda disse a um monarca que as pragas vêm pelo norte, pelo sul, pelo este e pelo oeste e que são a doença a velhice e a morte, indicou também que o que podemos fazer é meditar, praticar boas ações e ser equânimes.


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