O Ioguim do Silêncio
- 6 de fev. de 2018
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Tratava-se de um Mestre que apenas falava em raras ocasiões.
Ás vezes dava alguma sucinta explicação e proferia algum ensinamento, mas, habitualmente guardava silêncio.
Era conhecido como o "Mestre do Silêncio"; outros chamavam-no de "O Ioguim que mal mexe a língua". Falava em silêncio, de coração para coração, sem necessidade de palavras.
Mas havia um disciplino que dava demasiado valor às funções do pensamento e tentava sempre implicar o Ioguim do silêncio em conversas metafísicas. Era um jovem que precisava de elaborar tudo através do pensamento. Confiava plenamente na mera compreensão intelectual. Colocava-se muitas questões filosóficas. Queria perceber tudo através da lógica.
Certo dia, com algum descaramento disse:
- Mestre, pergunto-lhe mas não me responde. Não me dá respostas para o mistério da vida, nem sobre o ser ou não ser, nem sobre a morte, nem para o sofrimento. Não consigo compreender a sua recusa em oferecer respostas às minhas perguntas.
O Mestre guardou silêncio. Todos os assistentes identificaram-se com o estado contagiante e aprazível do Mestre e mantiveram-se silenciosos.
Ao finalizar a reunião espiritual, o Mestre, pediu ao aluno que o tinha interpolado, para ficar mais um pouco.
Entregou-lhe uma agulha e disse:
- Quero que ponhas uma gota de água na ponta desta agulha.
- Impossível! - Exclamou indignado o disciplino.
- Mais impossível ainda é querer compreender com o pensamento, aquilo que sempre esteve para além do pensamento.
Pendura a agulha ao pescoço e quando te baralhares com pensamentos metafísico, lembra-te: «Mais difícil do que pôr uma gota de água na ponta de uma agulha é encontrar respostas unicamente com o intelecto.»
O discíplo sentiu-se envergonhado e ruborizou-se, mas o Mestre tranquilizou-o:
- Não te sintas ridículo. O meu Mestre deu-me essa agulha a mim e eu andei com ela pendurada ao pescoço durante muitos anos. Agora é tua.
O pensamento ocupa um lugar e exerce uma função, mas da mesma maneira que um comboio nos pode levar até à beira-mar, mas não mais além. Será preciso de mudar de veículo se quiseres continuar a viagem pelo mar.
O mesmo sucede com o pensamento. É limitado e não omnipotente. Muitas vezes na vida, é preciso servirmo-nos do pensamento, mas noutras, o importante e o essencial é estar atento, perceptivo, com a mente em silencio e o ânimo receptivo.
Se for preciso pensar, pensa-se. Mas a vida não se pode solidificar, reduzindo-a a conceitos, abstracções e etiquetas.
Muitas vezes em vez de pensamentos basta termos uma mente limpa e um coração predisposto.


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